quinta-feira, 19 de junho de 2014

Café expresso

   Tenho um serio problema de memória, lembro-me mais do que deveria. Assim com quem sofre, ou melhor dizendo, tem a dadiva da sinestesia, certas lembranças trazem consigo cheiros, sabores e cores, aguçando meus sentidos e acordando desejos.
   Das lembranças que me apego ou que me pego a lembrar, as que mais me causam dor são as que não se concretizaram, as que não se completaram, não chegaram aos finalmentes, a que deixou um sabor faltando ou ficou com falta de sabor. E elas vem, sempre vem, inusitadamente com um simples gesto ou até um ato rotineiro que devido a uma situação excitante se ligou em uma nova sinapse, uma nova memória.
   Júlio Iglesias, não importa onde toque, sempre irei lembrar de minha mãe, tem cheiro de infância e gosto de bala de goma. Vitrine de padaria, lembra meu pai. E tantas outras coisas trazem lembranças: Cinza mescla, morangos, comprimidos, ônibus de viagem, novela mexicana, bailarina, plastico de piscina e One Night do Elvis.
   Faço essas ligações não por minha escolha, quando dou por mim, a associação já foi feita, e tudo está perdido, nunca mais será o mesmo, como as minhas xícaras de café expresso depois das quatro e meia da tarde.

Nenhum comentário:

Postar um comentário